O poder da educação para a formação de boas pessoas

A educação é levada a sério por pais responsáveis e que desejam um bom desenvolvimento de seus filhos. Assim, quando recebo pais pela primeira vez na escola, e faço isso há 40 anos, sempre pergunto a mesma coisa, e queria aproveitar e fazer a vocês essa mesma pergunta:

Você sabe por que traz seu filho à escola?

É por que tem que trabalhar? Será que pintou um sentimento de culpa por deixar sua criança pequena com outros? Você escolheu isso por ter avaliado que a escola traz benefícios às crianças?

Através do tempo as respostas vão mudando e hoje, muitas vezes, os pais querem que a escola os substitua, pois estão muito envolvidos com suas carreiras. Será isso possível? Infelizmente não…

A escola nunca substituirá a presença dos pais. Cada um tem seu papel na educação das crianças. 

Quantos de vocês têm filhos? Vocês se perguntaram qual é o papel da escola? E qual é seu papel na educação das suas crianças? Quantos de vocês se perguntaram se estavam escolhendo uma escola para educar seus filhos ou uma escola para complementar a educação que vocês estão dando a eles? E como saber isso?

Afinal, o que é educar as crianças?

Ainda hoje, para muitas famílias, educar as crianças é prepará-las para o vestibular, para o mercado de trabalho, para a vida, para serem felizes… Mas… Quanto tempo vai durar o vestibular? Que empregos serão esses? E qual será essa realidade? Que felicidade será essa? 

Quem já pensou que talvez educar as crianças seja apenas ajudá-las a se construírem como boas pessoas? Quando falo em boas pessoas, quero dizer éticas, solidárias, que sabem respeitar a si próprias, ao outro, ao ambiente — são responsáveis. São responsáveis consigo próprias e só isso já as faz competentes.

Boas pessoas, por serem colaboradoras, desenvolvem a criatividade; afinal, estão sempre buscando uma forma de ajudar a solucionar problemas. Encontrar as “saídas” também as faz pró-ativas.

Mas ninguém se torna uma boa pessoa no Ensino Médio ou na universidade se não viveu isso na infância, se não construiu esses modelos em seu repertório. Por isso, a escolha que vocês pais fazem sobre a escola de seus filhos é importante. A família e a escola em cooperação que vão tornar seu filho uma boa pessoa, um cidadão, um cidadão do mundo.

Sempre são nossas escolhas que conduzem a vida! 

Crianças precisam ser cuidadas desde pequenas, e são nossas escolhas, as dos adultos, que determinam esses cuidados. Para os pais, as escolhas começam quando resolvem ter um filho, ou mesmo quando são surpreendidos com a chegada de um bebê… Às vezes, isso também acontece… Tantos sonhos, tantos receios, tantos caminhos para escolher, tantas decisões, quanto para aprender… 

Para a escola, o começo é a escolha do modelo de educação que vai nortear suas ações: metodologia, as boas práticas que serão implementadas e vividas naquele ambiente.

As crianças vão começar a se construir como pessoas do bem com as escolhas dos adultos, com as escolhas que vocês, pais, e nós, escolas, fizemos e faremos a cada dia. Você já pensou nisso? Já dimensionou o tamanho da sua responsabilidade?

Quando comecei minha vida na educação eu queria cuidar das crianças. Mas, aos poucos, fui entendendo que, para educar as crianças, primeiro eu precisava educar a mim mesma, colocar-me no papel natural do adulto da minha espécie, a espécie humana, na função de apresentar o mundo às crianças pequenas.

Como todo ser vivo do reino animal, os humanos não escapam à regra e os adultos devem cuidar dos seres jovens da sua espécie… Cuidar de um ser jovem da espécie: você já pensou sobre o assunto?

Se a meta da educação é a formação do cidadão do mundo, é preciso que as crianças pequenas vivenciem isso ao longo da infância. A escola e a casa precisam ser espaços dessa aprendizagem.

Eu trabalho há mais de quarenta anos numa escola em que as crianças têm suas responsabilidades desde pequenas, escolhem suas atividades, exercitam a colaboração e a solidariedade, desenvolvem a autonomia e o respeito — uma Escola Montessori, a Aldeia Montessori! E tudo isso é possível por meio das escolhas dos adultos.

Pode parecer que dá muito mais trabalho se pensarmos em educação “por atacado”, seguindo uma receita pronta para todos. Para cuidar das crianças como elas precisam, temos que disponibilizar opções, alternativas…
Devemos preparar os ambientes de nossa casa e da escola para as escolhas das crianças, com alternativas que nutram sua curiosidade, que assegurem sua segurança.

Assim, as crianças que ainda estão aprendendo a fazer suas próprias escolhas vão desenvolver e se apropriar de um senso crítico ao longo do tempo, elas vão se construindo como pessoas críticas, íntegras, ativas, que aceitam e respeitam as diferenças; por isso, tornam-se muito mais potentes.

Já os adultos precisam se preparar para oferecer essas oportunidades, a fim de propiciar às crianças a vivência de toda essa maravilhosa experiência de construírem a vida, suas próprias vidas, vivendo-a!

Precisam cuidar dos modelos de pessoas que vão oferecer às crianças, pois elas aprendem com o que veem… Por exemplo, sabe quando você é impulsivo e grosseiro e vê seu filho fazendo o mesmo? São os “neurônios espelho” funcionando, pois eles estão a todo o vapor na primeira infância.

É comum, na chegada do bebê, os pais se preocuparem com a organização do seu quartinho, escolherem o uso da cama compartilhada ou outras coisas tão em voga. Mas aquele pequeno ser vai ocupar a casa inteira…

E aí? Nos primeiros meses de vida, não é só de leite materno que vive o bebê. Ele absorve o mundo pelos sentidos…

Imagens, sons, cheiros, texturas: tudo tem um significado intenso na formação desse serzinho. E essas sensações estão por toda a casa — não só no quarto do bebê, extremamente planejado e imaculado.

Às vezes, nossa ansiedade e desejo nos leva a exagerar nesse cuidado e acabamos criando quartos superdecorados… Mas tantos estímulos acabam deixando as crianças agitadas! Quartos ao gosto dos adultos muitas vezes, mas não de acordo com as necessidades das crianças.

São os pais que apresentam o mundo pela primeira vez às crianças: qual é o mundo que você quer apresentar ou já está apresentando ao seu filho? Preparar a casa para receber a criança e adaptá-la à medida que ela cresce é promover a inclusão de seu filho em sua família.

É isso que vai favorecer suas ações na comunidade familiar, vai poder ter pequenas responsabilidades, vai poder satisfazer suas necessidades básicas, vai poder fazer escolhas, vai poder ser colaborador. Aí nasce a responsabilidade social do futuro cidadão do mundo, aí nasce uma educação cidadã!

Nasce dos valores humanos que vivem em cada família e quando são estendidos pela escola que você escolhe.

Como a escola é um espaço coletivo que coeduca ou coopera na educação, a escola que você escolhe para seu filho precisa caminhar na mesma direção que você escolheu…

Minha opção sempre foi que a escola que dirijo seja uma escola cidadã. Nas escolas em que trabalhei — e olha que já estou educadora há 53 anos! —, os primeiros 11 anos foram em escolas da rede pública. E os últimos 42 anos, por uma oportunidade da vida, numa escola Montessori.

Em ambas, sempre houve espaço para vivenciar valores éticos universais, e cada vez mais tenho a certeza de que eles são a base para o sucesso de qualquer empreitada na educação de seres humanos, realmente humanos.

Em 2016, visitei a Finlândia, tão na moda por seu sistema educacional de sucesso… E o que encontrei como base para o tão admirado sistema educacional foi o investimento maciço na formação do caráter. Claro que as escolas são maravilhosas, mas o que as sustenta, então, é o investimento na formação do caráter, um programa que fomenta o cultivo das virtudes humanas – na colaboração, na responsabilidade, na compaixão, na bondade, na solidariedade.

O que vi foram escolas cidadãs e cuidados com as crianças, que a cada etapa de seu desenvolvimento recebiam a ajuda necessária para formar hábitos e atitudes cidadãs.

E não é o dinheiro que faz isso, são nossas escolhas e nossos valores. Nossas escolhas e valores são o verdadeiro legado que deixamos para nossas crianças.

Márcia Righetti é educadora, fundadora e diretora pedagógica da Aldeia Montessori e do Centro de Estudos Montessori do Rio de Janeiro, coach em Formação Montessori, especialista Montessori pela ABEM, Seton Montessori Institute (Chicago/EUA), CEM – Chile.

Montessori nos dias de hoje

Io voglio l’uomo che há vinto se stesso e si é formato un’anima grande. l’uomo che há conservato un corpo sano e robusto. Io voglio l’uomo che voglia con me, unire l’anima e il corpo per procreare il figlio! Il figlio migliore, piú perfetto, piu forte di quelli che hanno creato.” *

Maria Montessori. Dal infanzia all’adolescenza, Garzanti, 1939.

Quando Maria Montessori falava sobre seu trabalho, ela própria dizia que o método de educação Montessori poderia ser definido como uma ajuda à vida.

Uma ajuda com a finalidade de ajudar o ser humano na conquista de sua independência; como um meio para libertá-la das opressões e dos prejuízos que era submetida em nome da “educação”; naquela época muito mais restritiva e opressora.

Para Maria Montessori, era a personalidade humana e não o método de educação que deveria ser considerado. Portanto, dizia que o conhecimento científico da natureza das crianças e o reconhecimento dos seus direitos universais deveriam ser os sustentáculos para qualquer procedimento educacional.

O homem é universal e, quer esteja na Índia, na Europa, na América ou no Brasil, as leis que regem seu desenvolvimento são as mesmas.

“Mas onde começa o desenvolvimento da personalidade humana?” Questionava a cientista italiana que dedicou sua vida à criança; tendo certeza de que, para redefinir a qualidade de vida do homem, era necessário educar as crianças assim. 

Para entender a proposta educativa de Maria Montessori, é necessário compreendermos sua história e a história do próprio homem naquele momento cultural. 

A princípio, Montessori inicia seu trabalho numa época em que a Psicologia apenas começa a despontar. Além disso, ela fundamenta sua proposta em uma prática educativa focada na observação da criança, no afeto, na confiança entre o aprendiz e o mestre.

Isso tudo num ambiente que, como um ninho, recebe as crianças, fortalecendo-as no que se torna necessário para suas vidas e nutrindo-as na construção da inteligência.

Durante muito tempo, acreditava-se que a personalidade humana era “herdada” pelas crianças; de geração em geração. E a construção da inteligência humana, que as distingue das outras espécies animais, tornando-a única sobre a Terra, era ignorada.

Como se forma a inteligência humana? Por quais processos passa e que leis regem tais processos?

Ora, se todo o Universo se sustenta sob leis fixas, é impossível que o homem, dele, não tenha sustentado seu próprio desenvolvimento sobre leis semelhantes.

Poderíamos afirmar que as leis que regem o Universo são as leis cósmicas, as mesmas que regem o desenvolvimento do homem.

Somente num terreno bem cuidado podem germinar plenamente as sementes, as quais, por sua vez, constroem uma nova árvore, que certamente poderá produzir frutos saborosos.

Assim, somente cuidando do ambiente que acolherá a criança se poderá garantir um desenvolvimento que promova a conquista da harmonia pessoal; assim como da competência para construir uma vida com melhor qualidade.

Maria Montessori viveu em tempos de guerra, atravessou os dois grandes conflitos mundiais. Talvez por isso a paz fosse tão importante para ela. Talvez por viver o caos dos dias de guerra e de perseguição, a liberdade fosse uma conquista valiosa, inestimável.

Para ela, a construção de melhores condições de vida, de uma humanidade onde os valores éticos universais norteiem as relações; onde cada homem saiba respeitar e possa viver com dignidade, seja qual for seu credo ou sua raça; é o trabalho cósmico que está nas mãos das crianças.

Em toda a sua obra, é grande a certeza de que somente a educação é o agente da transformação da humanidade. Nesse sentido, é certo para Montessori que à criança cabe essa missão redentora, pois é o elo entre as gerações.

A construção da paz entre os homens é, sem dúvida alguma, o objetivo de todo o sistema de educação Montessori, num olhar olha para o sempre. Num olhar que percebe a grandiosidade do trabalho do homem nesse planeta e de toda a sua história.

É necessário que a sociedade moderna possa preparar adequadamente o homem para o estado presente da vida social; para a cidadania; para a organização moral.

Geralmente, os homens são educados considerando-se apenas como seres individuais, com interesses imediatos para serem satisfeitos, competindo com outros indivíduos. Nesse sentido, poucos são os que se dão conta de que somente quando o progresso está relacionado ao bem-estar comum ele se estabelece e se multiplica. Muitas são, certamente, as situações vividas pela humanidade que comprovam tal afirmação.

Podemos afirmar que o que compete à educação é oferecer ao homem as condições de reflexão que permitirão seu próprio aprimoramento e assim, consequentemente, a “reconstrução” da humanidade.

Montessori declara que o homem precisa tomar consciência de sua própria história, perceber inter-relações entre seres e usar do passado para poder construir o futuro.

Mas para tudo isso não basta lançar um princípio abstrato ou propagar uma convicção — é preciso arregaçar as mangas e pôr as mãos à obra. Construir cada etapa, assentar cada tijolo, tendo em mente a importância do trabalho a realizar na educação das crianças.

Quando tudo começou, havia apenas a pequena “Casa dei Bambini” da vila de San Lorenzo, em Roma, 1907.

Hoje, teorias como as de Gardner (sobre as múltiplas inteligências); de Goleman (sobre a inteligência emocional) ou de Emília Ferreiro (sobre a psicogênese da língua escrita) ratificam as práticas montessorianas, assim como a Neurociência.

Afinal, Montessori foi uma cientista demasiadamente brilhante; com a visão da provisoriedade da verdade científica. Teve como base do seu trabalho a observação da criança à luz do conhecimento científico de cada época. A criança de cada momento, de cada país, de cada raça, com suas particularidades; mas sempre a criança que constrói o homem.

Como resultado, cada nova descoberta no campo da ciência permite maior aprofundamento na observação e no conhecimento dessa criança e, consequentemente, da personalidade humana.

Hoje, espalhadas pelos quatro cantos do mundo, as escolas de educação Montessori se multiplicam. Em cada uma delas, ocorrem atividades que se sucedem no cotidiano escolar. Nelas, as crianças vivenciam situações onde podem se exercitar quanto aos valores que fundamentam uma cultura de paz; desabrochando sua criatividade – protagonistas que são da sua educação.

Assim, em ambientes estruturados segundo as necessidades de cada etapa do desenvolvimento desde os primeiros anos, seja nos “Nidos” até a adolescência; ou em classes do Ensino Fundamental e do Ensino Médio; depois, já adultos, na Universidade; todas as escolas montessorianas consagram à vivência dos valores éticos universais um papel relevante na formação dos estudantes. Definitivamente, Maria Montessori também percebeu a importância da educação emocional.

Nesse meio tempo, cada situação de classe envolve uma possibilidade de exercício. Quer seja na ecologia pessoal, aprendendo a cuidar de seu corpo, alimentar-se, educar seus movimentos; ou na ecologia ambiental, ainda assim aprendendo a zelar pela conservação da ordem nos diferentes ambientes no espaço escolar. Pode ainda fazer parte da ecologia social, desenvolvendo atitudes e valores como verdadeiros construtores da paz.

Nessas escolas, o conhecimento acadêmico está diretamente relacionado ao serviço da responsabilidade social; da solidariedade e de outros tantos valores que subsidiam a construção da PAZ.

Dessa forma, educação precisa estar a serviço do homem e este, por sua vez, precisa entender a necessidade do seu serviço à humanidade.

Em suma, essa é a visão cósmica que fundamenta os pressupostos filosóficos do Sistema de Educação Montessori: A PÁTRIA DO HOMEM É O UNIVERSO!

Assim, para Maria Montessori, não bastava uma escola que cumprisse com sua função acadêmica, ela queria mais: queria uma escola que pudesse “formar o homem completo”.

Nesse sentido, esse homem seria consciente de seu papel na humanidade, responsável consigo próprio e com os outros. Bem como capaz de harmonizar o corpo e o espírito. Do mesmo modo, capaz de criar gerações cada vez mais capazes de buscar o próprio aprimoramento e assegura melhor qualidade de relações e de vida.

“A educação não tem o direito de reduzir a instrução a uma simples graduação para conseguir este ou aquele emprego. Este deve ser encarado apenas como um meio prático de nos inserirmos na sociedade. Não se pode encarar tal circunstância como uma finalidade da educação ou estaríamos sacrificando o indivíduo.” — Maria Montessori

“Eu quero o homem que venceu a si mesmo e formou uma grande alma. Quero o homem que preservou um corpo saudável e forte. Quero o homem que quer comigo, juntar a alma ao corpo para procriar o filho! Melhor, mais perfeito, o mais forte que as crianças que eles foram .”*

* Tradução da citação inicial

Por Marcia Righetti – que, além de fundadora e diretora pedagógica da Aldeia Montessori. É pesquisadora, especialista no Sistema de Educação Montessori,  coach de formação Montessori e diretora do Centro de Estudos Montessori.

Uma trajetória Montessori: desenvolvimento e transformação

Crianças nascem, crescem… Tornam-se jovens a seguem amadurecendo pela vida. E uma trajetória Montessori está relacionada de forma direta ao desenvolvimento e à transformação.

Por isso, surgiu a Aldeia Montessori que, ao abrir suas portas em 1978, compreendeu que, no mundo contemporâneo,  educar é tarefa que vai além dos limites da sala de aula e da formalização de conteúdos.

Por isso, desde e sua “gestação”, a opção pelo Sistema Montessori parecia o caminho mais adequado para que a Aldeia pudesse ser, como imaginava Márcia Righetti, fundadora da escola, o espaço dedicado ao desenvolvimento e as transformações pelas quais passariam as crianças em seu processo de crescimento.

As trajetórias da escola e de sua idealizadora se misturam nesses 40 anos de educação, permeados por muito estudo, conexões com diferentes instituições montessorianas e parcerias que ajudaram a Aldeia nessa extensa caminhada.

A Smirna, desenvolvedora de material didático para salas montessori é um desses parceiros. Sua relação com a Aldeia extrapola o interesse comercial, pois partilham o mesmo ideal educativo legado por Maria Montessori.

Em homenagem às quatro décadas de atuação a Aldeia, a Smirna, carinhosamente, publicou uma matéria sobre Márcia Righetti e a sua trajetória Montessori.

Para ler esta homenagem, clique aqui.

Assim se faz educação relevante: unindo pessoas por meio e ideais e valores de vida que vão muito além do muros de uma escola.

O que todos nós podemos aprender em um ambiente Montessori?

Para muitos, a ideia de um ambiente Montessori é ainda alguma coisa relacionada à primeira infância. Algum tipo de escola vista, talvez, como alternativa e um pouco privilegiada.

Quando meu filho mais velho chegou à idade pré-escolar, e depois o mais novo, eu os matriculei numa pré-escola Montessori.

Naquela época, eu era professora na Educação Básica da rede pública de ensino. Fui, aos poucos, ficando mais familiarizada com a filosofia de Maria Montessori, pioneira há mais de cem anos na Itália, e gostei.

Gostei tanto que foi aí que comecei a estudar sobre Montessori; estávamos em 1975 e o primeiro curso que fiz, na mesma escola em que meus filhos estavam matriculados, fez com que buscasse outros e outros. E continuo encantada, estudando Montessori para sempre!

Em 1978, nasceu a Aldeia Montessori, a escola que dirijo desde então. É nesse espaço e do contato diário com as crianças que vou descobrindo mais, cada dia, sobre o que um ambiente Montessori pode nos ensinar. Desde 2007, dedico-me também à formação de professores com base no método Montessori.

Percebo que o que chama atenção, à primeira vista, em uma escola Montessori são suas salas de aula. Lindas e coloridas, pela diversidade de materiais dispostos criteriosamente em estantes abertas. Elas são projetadas para serem simples e organizadas, de maneira que tudo possa ser facilmente utilizado pelas crianças. Isso encanta!

Outro aspecto que surpreende é a atitude dos alunos: na maioria das vezes, eles estão focados na atividade que realizam, quer sejam miúdos ou já maiores.

Começamos pelas classes de 0 a 3 anos. Nelas, a motricidade e a linguagem são o foco do desenvolvimento das crianças e elas têm ali também as primeiras experiências sociais, convivendo em grupo. Elas interagem entre si e o ambiente se mostra calmo.

Cada uma escolhe sua atividade, por vezes experimentam pegar o material que o amigo está usando. Então, a professora observa e intervém se necessário.

A professora pode também estar observando o grupo, ou estar com um pequeno grupo, apresentando um material a uma criança. Alguém pode molhar as plantas ou cuidar do aquário, pode se entreter com um livro de histórias, ou pode observar o trabalho de um amigo.

Isso é geralmente o que encontramos também nas classes de 3 a 6 anos, com a diferença de que nesse ambiente, as crianças estão voltadas para novas aprendizagens. Além disso, o foco da linguagem expande-se para a linguagem escrita e a motricidade vai se refinar em diferentes situações. Ela desperta para o conhecimento do mundo, além do ambiente circundante e a Matemática começa a fazer parte de suas investidas.

Sem dúvida, o caminho de toda essa aprendizagem é a via sensorial e o movimento. Mas em qualquer que seja a classe, o burburinho do trabalho das crianças é harmonioso, “um zunzum de trabalho”, como costumo dizer.

Nas classes de Ensino Fundamental, o trabalho dos alunos é bastante rigoroso. Eles pesquisam sobre temas de sua escolha, que tanto podem envolver dinossauros, tubarões, sistema solar ou o período colonial do Brasil. Também podem  saber mais sobre outro país ou continente. Mesmo crianças menores, de 6 a 9 anos, podem fazer multiplicações e divisões de vários dígitos, discutir sobre vários assuntos e escrever sobre o que pesquisam.

Mas o que torna um ambiente Montessori tão especial?

Respeito ao ritmo de cada criança

A diferença mais notável entre uma escola tradicional e uma escola Montessori é que os alunos se movem em seu próprio ritmo. Em vez de participar de uma aula dirigida pelo professor, na qual todos os alunos realizam as mesmas tarefas e são colocados no caminho para atingir o mesmo objetivo acadêmico todos os dias, cada aluno trabalha em lições precisamente ajustadas ao nível da habilidade atual. São eles que escolhem as lições para fazer.

No Ensino Fundamental, existe um “combinado” com as lições da semana. Eles podem, entretanto, realizá-   -las na ordem que quiserem e pelo tempo que quiserem.

Se um estudante está realmente envolvido com um material de Matemática, por exemplo, ele não é interrompido por gastar muito tempo na atividade. E se um aluno demonstrar um interesse particular em um tópico, digamos o “rio Amazonas”, ele incorpora esse tópico, enquanto ainda cumpre as metas curriculares.

Classes de idades mistas

Maria Montessori acreditava que as faixas etárias mistas eram de grande benefício para os alunos, fortalecendo a colaboração e a aprendizagem entre os pares. Esse é um fato preponderante no desenvolvimento social e emocional, ampliando as relações interpessoais.

Os alunos mais velhos assumem papéis de liderança naturalmente e ajudam a definir o ambiente de trabalho. A cada tempo os papéis se diversificam e todos têm a oportunidade de liderar e de serem liderados.

Eles também encontram maneiras de liderar. Seja pelo conhecimento crescente em uma área específica, um talento especial ou com seu próprio conjunto exclusivo de habilidades sociais.

Flexibilidade

Ter um cronograma regular de atividades diárias não significa ser rígido para acomodar eventos especiais que podem acontecer. Desde atividades realizadas no espaço externo, em contato direto com a Natureza até as aulas de campo. Receber visitas ou preparar juntos o lanche do dia e ainda aproveitar uma novidade trazida por um amigo para aprender mais sobre o assunto.

Esse tipo de flexibilidade é algo que pode trazer enorme benefício: capacidade de aproveitar as oportunidades à medida que elas surgem, ser criativo etc.

O potencial humano como foco na educação

Embora os alunos façam o trabalho acadêmico todos os dias, o currículo Montessori expande sua visão numa educação integral, holística, na qual os desenvolvimentos emocional, social, motor e acadêmico têm o mesmo valor.

Quando as pessoas olham para um programa acadêmico, olham especificamente para as competências cognitivas. Mas todos nós sabemos que o acadêmico é insuficiente para toda a criança — aliás, para qualquer pessoa.

Sempre temos o foco na criança por inteiro: independência, capacidade de concentração, empatia, resiliência, capacidade de compartilhar espaço, respeito pela comunidade, capacidade de solucionar conflitos, competência para expor suas ideias e sustentá-las, entre tantas outras que vão se desenvolvendo à medida que a cresce.

Visão e Educação Cósmica

“A visão de MONTESSORI, do mundo, tem uma dimensão cósmica porque ela inclui tudo: MONTESSORI olha o mundo, vê o mundo numa escala enorme, quer dizer, vê o universo com todas as suas inter-relações. A visão de MONTESSORI também é cósmica porque ela olha a humanidade em sua totalidade através do tempo. Ela vê os seres humanos guiados por uma finalidade desde a época de sua aparição; vê a humanidade ao mesmo tempo adulta e criança; vê ainda o indivíduo ao mesmo tempo em sua unidade e nas suas diferenças de desenvolvimento durante as diversas etapas ou estações da vida, considerando cada indivíduo como uma parte do universo.”

(Pietro de Santis, em “A Paz em Montessori”, Encontro internacional de líderes, Rio de Janeiro, 2002).

Educação como ciência

Maria Montessori defendia que a educação deve resultar de uma abordagem científica capaz de respeitar as leis do desenvolvimento da criança e adolescente e suas fases evolutivas.

“Se a ciência começasse a estudar os homens, conseguiria não só fornecer novas técnicas para a educação das crianças e dos jovens, mas chegaria a uma compreensão profunda de muitos fenômenos humanos e sociais que estão ainda envolvidos em espantosa obscuridade.

A base da reforma educativa e social, necessária aos nossos dias, deve ser construída sobre o estudo científico do homem desconhecido.”

Maria Montessori, da Infância a adolescência.

Ambiente preparado

O ambiente preparado, segundo Montessori, é aquele preparado pelo adulto à luz da ciência do desenvolvimento humano.

A sala de aula Montessori usa espaço físico e tempo que permite a concentração e design que permite que as crianças encontrem, escolham e usem materiais para aprendizagem com autonomia.

A chave do sucesso de uma classe Montessori está em criar um ambiente propício ao protagonismo da criança e do adolescente, com aprendizagem independente ou autoeducação, como costumamos dizer.

Professores preparados

Para dirigir uma classe Montessori, o professor precisa estar preparado: conhecer sobre desenvolvimento e aprendizagem, sobre as estratégias didáticas do Sistema Montessori e ser capaz de projetar e manter o ambiente que nutrirá a curiosidade de suas crianças, além de guiá-las pelo caminho a percorrer no seu processo de aprendizagem.

Deve ser um observador para poder seguir a criança e oferecer a ela o que precisa para ir adiante.

Para Maria Montessori, o professor é o cientista que cuida do “laboratório da vida” que cada classe representa.

Ensinar ensinando

Essa filosofia é aparente na forma como os alunos são tratados. Se uma criança está se distraindo e tendo problemas para se concentrar, em vez de repreendê-la, cabe ao professor reacender o interesse dela, observar para determinar o que a está confundindo ou ajudá-la a encontrar outra tarefa que seja mais atraente, nutrindo sua curiosidade.

Na prática da observação, há a identificação dos pontos em que a criança precisa de ajuda e a retomada do processo de aprendizagem no ponto em que ela encontrou algum obstáculo. Sem corrigi-la, apresenta a maneira correta para que ela própria possa perceber seu erro e construir o acerto.

Os alunos também recebem muita responsabilidade para manter a sala de aula em ordem e limpa, planejar refeições e lanches e resolver os problemas à medida que surgem. Todos esses itens não são vistos como distrações do currículo, mas partes importantes dele, exercícios de autonomia que fortalecem a autoestima e a autoconfiança do aprendiz.

O que todos nós podemos aprender com um ambiente Montessori?

Aplicado desde 1907, revolucionou a concepção de escola, “entregando” o protagonismo ao aluno; sobreviveu a tantas outras abordagens de ensino e hoje serve de inspiração às escolas inovadoras em todo o mundo.

Sua base científica comprovada pelos estudos da Neurociência ratifica os caminhos escolhidos pela Dra. Maria Montessori.

E do jeito que as coisas estão ultimamente, pode ser hora de procurar por uma maneira totalmente nova de fazer as coisas. Mesmo que esse “novo” caminho seja realmente um clássico.

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Texto de Márcia Righetti, originalmente publicado neste link.

Márcia, além de fundadora e diretora pedagógica da Aldeia Montessori, é pesquisadora, especialista no Sistema Montessori,  coach de formação Montessori e diretora do Centro de Estudos Montessori.

Responsabilidade e liberdade no contexto montessoriano

Responsabilidade e liberdade, em um ambiente montessoriano, têm conceitos amplos e relacionados. Mesmo assim, quando se escolhe uma Escola Montessori para seu filho, muitas vezes o conceito de “liberdade”, da qual tanto se ouve falar sobre esse tipo de escola, pode não estar claro pra você.

Pensa-se que a relação das crianças com o ambiente, com as outras crianças e com os adultos é construída num processo “livre” e que elas fazem o que querem…

Que engano!

A liberdade da qual nos fala Montessori está relacionada às conquistas pessoais ou coletivas que se sucedem no desenvolvimento da criança, no caminho de aprender a fazer escolhas e responsabilizar-se por elas, de aprender a avaliar a validade de seus atos, de aprender a ser e se relacionar adequadamente com todos, visando ao bem-estar comum, de apresentar comportamentos apropriados a cada ambiente e em cada momento.

É isso que, do ponto de vista de Maria Montessori, representa ter liberdade – “sendo parte do todo, buscar a harmonia interior e interagir no todo de forma positiva”.

Ajudar a criança a construir essa liberdade é o papel dos adultos.

Sem dúvida alguma, ela inclui a responsabilidade, primeiro consigo própria para depois poder expandi-la até perceber-se como parte do Universo — caminho longo, talvez de uma vida…

Em uma Escola Montessori, é na prática diária, desde a classe dos pequeninos, o “Nido”, e/ou no pré-escolar da Educação Infantil que o terreno começa a ser preparado, num trabalho que tem início com a educação dos movimentos, um conjunto de atividades que permite que a criança desenvolva habilidades e construa repertórios que a habilitem para uma atuação cada vez mais autônoma e apropriada no seu ambiente.

Ativa no seu processo de autoconstrução, aprendendo a fazer para poder ser, a criança vivencia as muitas possibilidades de exercício que o ambiente estruturado que uma Escola Montessori oferece. Assim, em atividades de livre escolha, a ação da criança vai se organizando e é assim que sua liberdade também vai se ampliando.

Em algumas situações, que causem dano ou risco à própria criança, ao ambiente ou a outrem, deve haver um cuidado especial. Deste modo, a intervenção imediata do adulto é necessária para mostrar à criança a maneira correta de agir. Ensinar ensinando!

Muitas vezes o que acontece, por parte dos adultos, é uma sucessão de “nãos” e de ordens que não constroem: “não faça isso!”, “fique quieto!”, “desça daí!”, “não bata a porta”, “não corra”! Expressões que apenas interrompem ou impedem a ação da criança e a ensinam a dizer muitos “nãos”…

Ensinar, ensinando requer que se demonstre à criança a maneira correta de agir:

– Para sair, caminhamos…
– Para fechar a porta, faço assim…
– No sofá, nós nos sentamos!
– No cinema, ficamos em silêncio!
– Na rua, as crianças precisam caminhar junto ao adulto!
– Para falar, cada um espera sua vez!

Muitas informações vão sendo vivenciadas com a criança; assim, ela adquire atitudes adequadas e constrói bons hábitos.

Ao refletirmos sobre liberdade, cremos que ela está inversamente relacionada à disciplina e aos limites, mas do ponto de vista montessoriano é justamente o contrário.

Só é livre aquele não se sente atado pelos limites, que reconhece os que deve transgredir para conquistar seu crescimento pessoal, que respeita os limites que lhe são necessários para uma convivência harmoniosa em todos os planos de relações: consigo próprio, com o outro e com o ambiente. E esse, sem dúvida, é aquele que se autodisciplinou.

Toda essa construção culmina na formação do caráter e é por isso que devemos estar atentos às crianças pequenas, que estão desenvolvendo a concepção de bem e mal. Portanto, essa é, para Maria Montessori, a primeira lição que lhes deve ser dada. Devem ser cuidadas para não confundirem o bem com a passividade ou a inatividade e movimento e ruídos com o mal…

Crianças são puro movimento e por vezes ruidosas, precisam de espaço para usar a energia que trazem consigo, mas não se justifica que possam agir desrespeitando os outros.

Portarem-se de maneira indevida em diferentes espaços, aos gritos e correrias, não se justifica por serem crianças.

É desde pequenas que elas precisam aprender os comportamentos sociais — a isso nós chamamos de “Lições de Graça e Cortesia”. Portanto, somos nós, os adultos, que cuidamos de lhes ensinar as regras sociais da nossa cultura.

Para termos liberdade com responsabilidade, precisamos conhecer e respeitar os limites em cada situação de vida, ou identificar quando precisamos transgredi-los, superando-nos, com determinação, quando isso conduzir ao aprimoramento pessoal.

Liberdade só se aprende com verdadeiras lições de disciplina e responsabilidade!

“O homem é tanto mais livre quanto for sua capacidade de escolher as coisas que lhe fazem bem.”
– Maria Montessori

Por Marcia Righetti — Pesquisadora; Especialista no Sistema Montessori; Coach de formação Montessori; Fundadora do Projeto Pedagógico da Aldeia Montessori, que dirige há 40 anos, e do Centro de Estudos Montessori do Rio de Janeiro; Sócia fundadora da Organização Montessori do Brasil.

O que é Montessori: conheça mais sobre o método

Segundo Alicia Renton, se perguntassem à Maria Montessori o que é “Montessori”, ela responderia:

– Montessori sou eu.

Alicia Renton foi reconhecida pela American Montessori Society com o prêmio “Legado vivo”, atribuído aos montessorianos que se dedicam a propagar o legado de Maria Montessori. Mexicana de nascimento, radicou-se no Colorado (EUA) atuando como guia, palestrante internacional e formadora. Ela esteve no Brasil para a Conferência Montessori Latino- Americana promovida pela Organização Montessori do Brasil, onde tive oportunidade de conhecê-la e aprender com ela.

Das respostas simples de Montessori às indagações de seus contemporâneos até os dias de hoje, o trabalho da médica italiana vem sendo cada vez mais reconhecido.

Já são mais de cem anos de aplicação de pressupostos, estratégias didáticas e filosofia de educação iniciada em 1907 na Casa Dei Bambini, do bairro de San Lorenzo, em Roma.

Seu principal instrumento de trabalho, como médica e cientista que foi, antes de abraçar a Pedagogia, a observação. Investigar o que as crianças mostravam em seu processo de desenvolvimento, nas formas como aprendiam e como estabeleciam as relações no mundo. Uma escuta profunda do universo infantil.

Assim, como consequência, nasceu sua primeira obra dedicada à educação, “O método da Pedagogia Científica aplicado à educação infantil na Casa dei Bambini”, lançado em 1909 pela Casa Editrice S. Lapi, de Città di Castello, obra publicada pelo mundo afora e reeditada, em 1950, sob o título de “A descoberta da criança”.

Além disso, de lá para cá, a ciência esclareceu e ratificou o que a Dra. Montessori – sem dúvida uma visionária, com são os cientistas – apontara como princípios básicos para uma educação que vivenciasse plenamente o conceito de educação: trazer para fora o que está dentro.

Com o advento da Neurociência, por volta de 1970, muitas afirmações de Montessori sobre o desenvolvimento e o funcionamento do cérebro tiveram confirmação. Assim, pelos exames de imagem, o que muitas vezes nesse processo foi visto como crença confirmou-se como ciência.

Assim, pressupostos como uma educação ativa, um ambiente preparado e a livre escolha passam a permear projetos inovadores que se espalham pelo mundo. Além disso, a “escuta” das crianças e dos adolescentes e a função de guia da professora, ajudando à medida que cada um precisa se posicionar diante das oportunidades da vida, também cresceram.

Registros feitos numa documentação pedagógica que foge ao padrão dos boletins, resultados de provas que são cada vez mais abolidos do cenário da educação.

O processo educativo passa a ter o protagonismo da criança e dos jovens em sistemas educacionais espalhados pelo mundo, sementes montessorianas que germinam vigorosas.

Tenho visitado escolas por vários países e continentes e ao observar o encantamento dos educadores nas práticas que já fazemos há mais de cem anos, fico feliz com nossa escolha!

E se me perguntassem hoje o que é Montessori, respondo…

O legado de uma mulher que amava a humanidade, que se preocupava com a educação das crianças para que se construíssem como adultos éticos e competentes.

Que, como cientista, conhecia os processos de aprender que o cérebro desenvolve, que observou e investigou a criança e o desenvolvimento humano.

Baseando-se em seus estudos, os quais sempre dizia que deveriam ser continuados por seus seguidores; deixou uma rica documentação pedagógica para orientar aqueles que desejassem seguir seus passos na educação das crianças.

“Montessori” – hoje entendido como um sistema educativo, com partes que se integram e se completam para atender às diferentes características das crianças. Cada etapa do seu desenvolvimento natural tem como objetivo desenvolver o potencial humano para formar adultos éticos; ativos e assertivos que possam transformar o mundo num lugar melhor a cada dia.

Márcia Righetti é educadora, fundadora e diretora pedagógica da Aldeia Montessori.

Limites, disciplina e liberdade em uma escola Montessori

É comum recebermos para visitar nossa Aldeia famílias que buscam uma escola Montessori em nome da tão propagada “liberdade” que entendem que a metodologia oferece. Propaganda certamente não entendida, pois vejo essas famílias pensarem que seus filhos vão poder fazer o que quiserem na escola. Uma contrapartida do que parecem encontrar nas escolas que consideram “tradicionais”, nas quais muitas vezes não conseguem lidar com tudo que a criança precisa dar conta…

Porém, não é bem assim…

Liberdade, para Maria Montessori, está diretamente relacionada à disciplina, ao respeito e à competência para fazer escolhas. Ela diz que “o homem é tanto mais livre quanto for sua capacidade de fazer escolhas”; devendo agir de maneira assertiva, pois precisa conhecer as regras que regem um espaço social e que regulam a ética; respeitar o espaço do outro e desenvolver, entre outras funções executivas, o controle inibitório, que permite o autocontrole.

Para as crianças, liberdade é um exercício de disciplina que se desenvolve no dia a dia.

Quer seja na escola ou em casa, ter pequenas responsabilidades que contribuam para o bem-estar comum; aprender a esperar sua vez ou cedê-la ao outro; perceber que os outros também têm vontades e direitos que precisam ser respeitados e que nem sempre a vontade pessoal pode prevalecer.
Conquistar a liberdade é um processo que cada criança tem o direito de desenvolver com o apoio dos adultos. “A liberdade, do ponto de vista Montessori, também está relacionada ao direito de ser criança e de poder brincar. Isso porque brincadeira é trabalho de criança, de merecer do adulto as oportunidades de ajuda necessárias para que possa desenvolver seu potencial; descobrir seus talentos; ser respeitado em seu ritmo de desenvolvimento.”

As conquistas só vêm com a consciência do seu espaço e do espaço do outro; dos seus direitos e dos direitos dos outros; das suas responsabilidades e das responsabilidades dos outros, um processo de construção de limites.


Digo sempre que a disciplina da escola Montessori é fruto do exercício interno de cada criança, com o apoio dos adultos, no seu tempo e no seu ritmo.

Por isso, pode ser vista às vezes como a mais rígida, já que cada criança vai descobrindo, nas relações cotidianas, seu espaço de ação e o uso dele a torna livre – são suas escolhas a cada momento que vão ampliando.

Algumas crianças, considerando o princípio da equidade, forte característica numa escola Montessori, precisam de mais auxílio que outras. Aqui a ajuda que procuramos dar é na medida em que cada uma precisa.
Assim, caminhamos com as famílias para ajudar cada criança a desenvolver melhor seu potencial e constituir-se num indivíduo capaz de exercer e usufruir plenamente sua liberdade de “ser humano” – essa é nossa prática pedagógica.


O ambiente preparado de uma escola Montessori autêntica, com uma equipe em constante aprimoramento e famílias parceiras, as quais buscam os mesmos resultados e compartilham os mesmos valores, é sem dúvida o facilitador desse processo.

No cotidiano da escola e da família, os processos que se desenvolvem na infância são exercitados, descobrindo regras que podem ser questionadas; reconstruí-las se necessário; construindo com as crianças as percepções dos limites que levam naturalmente à edificação da disciplina e de um convívio social amável, no qual o respeito e a ética estão presentes. Para nós, esse é o verdadeiro sentido da palavra “liberdade”.

Márcia Righetti é educadora, fundadora e diretora pedagógica da Aldeia Montessori.

O que está por trás de um ambiente Montessori?

Há mais de cem anos, Dra. Maria Montessori percebeu que a curiosidade natural das crianças poderia ser o centro de uma educação que efetivamente desenvolveria suas capacidades verdadeiras.

Suas primeiras experiências envolviam crianças de zonas de risco, com necessidades especiais; porém, mesmo assim, os resultados surpreenderam todos naquele tempo.

Seus conhecimentos além da Pedagogia, como sua experiência na Psiquiatria, deram a Montessori uma visão da educação que apenas depois do surgimento da Neurociência foi ratificada.

Ela sabia que era preciso educar o cérebro!

E foi a partir desse diferencial de conhecimento e de seu propósito de favorecer meios para “educar o potencial humano” que desenvolveu estratégias, utilizadas ainda hoje por cerca de vinte mil escolas espalhadas pelo mundo.

A ação da criança, movida por sua curiosidade natural, em um ambiente preparado para que os estímulos sejam apropriados ao seu desenvolvimento (seja no aspecto cognitivo, psicomotor ou socioafetivo), é fator preponderante nesse processo, que conta ainda com professores treinados, observadores e prontos para apoiar cada indivíduo.

Para o olhar leigo, um ambiente Montessori é apenas encantador, com tantos “apelos” nas estantes para agradar as crianças.

Numa segunda análise, ele é visto como uma possibilidade de aprender brincando, escolher o que se prefere e um lugar de muita liberdade.

Mas quando o adulto observa o burburinho de uma classe Montessori, logo questiona: Cada um faz o que quer? Como a professora “controla” a turma? Às vezes parece uma “confusão” de crianças andando pra lá e pra cá… De que maneira a criança aprende trabalhando sozinha?

Um ambiente Montessori precisa ser observado criteriosamente, a fim de entendermos tudo o que sua criadora analisou e concebeu para oferecer às crianças as melhores condições ao desenvolvimento de seus potenciais.

Dra. Maria Montessori, antes mesmo da Neurociência, que surgiu por volta de 1969, foi capaz de propor um ambiente facilitador para o desenvolvimento das funções executivas, as quais são habilidades que favorecem todos os outros processos de aprendizagem dos seres humanos. Entre elas podemos destacar: a memória de trabalho que, com as informações registradas na mente, aplica-as em situações posteriores; a flexibilidade cognitiva; e a capacidade de pensar criativamente, ajustando-se às novas situações.

Assim, são essas habilidades que fazem as crianças se tornarem adultos capazes de manifestar o autocontrole, a tolerância, a resiliência e a perseverança.

E afinal, o que torna uma classe Montessori diferente?

É que, nesse cenário preparado com cuidado científico, se desenvolvem naturalmente as funções executivas. Ele é estruturado para o desenvolvimento harmonioso da criança em etapas, às quais Dra. Maria Montessori chamou de “períodos sensíveis”, oferecendo-lhes possibilidades de movimento, curiosidade, escolhas e descobertas, nas quais o uso dos sentidos (tato, olfato, visão e gustação) também é fundamental.

A professora demonstra o uso do material, mas é o material que “ensina” a criança…

Por exemplo: quando usa a Torre Rosa, a criança assimila o conceito de grandeza nas dimensões, entendendo o que é grande e o que é pequeno. Quando organiza o sistema solar com miniaturas representativas, entende como os planetas orbitam o Sol; ou ainda usando o jogo da “Longa Divisão”, percebe o processo de dividir grandes números em vez de decorar.

As crianças que construíram boas funções executivas têm um nível mais elevado de habilidades emocionais e sociais, tendendo a ser mais saudáveis* ao longo da vida.

Esse é um processo de construção que exige percorrer um longo caminho, claramente favorecido pelos aspectos do desenvolvimento natural nos anos pré-escolares (entre os 4 e 5 anos) e no início da adolescência – sem dúvida, com resultados comprovados!

*Neste caso, a palavra “saudável” se aplica ao conjunto cognitivo-emocional, não à condição médica.

Márcia Righetti é educadora, fundadora e diretora pedagógica da Aldeia Montessori.

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Como encarar a liberdade e os limites na educação montessoriana

Certamente todos nós já presenciamos (ou protagonizamos) a cena de estarmos em algum local público com uma criança que se esgoela, chora, bate pé e se debate diante de alguma negação ou frustração.

A birra é um comportamento muito comum apresentado por crianças, mas nem sempre compreendido em sua essência pelos pais, os quais, em muitas situações, ao se verem constrangidos, cedem ou apelam para a punição física.

Para uma boa educação montessoriana, é preciso paciência e perseverança. Duas atitudes trabalhosas, principalmente nos dias atuais, em que o tempo parece ser um líquido escorregando entre nossos dedos.

Desde muito cedo as crianças procuram testar os limites daqueles que as rodeiam.
Elas identificam facilmente os adultos que cedem as suas birras e os que não cedem, construindo estratégias diferentes para lidar com cada pessoa em cada ocasião.
É assim que vão estabelecendo suas relações com o mundo.

Se a criança compreender que determinado comportamento a leva a conseguir o que deseja, é natural que volte a repeti-lo.

Se os pais têm dificuldade em adotar uma postura firme, confundindo autoridade com autoritarismo, observa-se como consequência o comportamento inadequado dos filhos, manifestando desrespeito com outras crianças e com os adultos com quem lida. Umas, quando não têm seus desejos satisfeitos, além da birra e do choro, batem e chutam; já outras, em manifestação extrema, cospem no alvo que dificulta conseguir aquilo que querem.

É preciso uma educação em que as crianças aprendam a lidar com o “não”, com a frustração, como a educação montessoriana. Na vida, nem sempre nossas vontades podem ser satisfeitas.

Nas palavras de Maria Montessori, em seu livro Mente Absorvente:

“(…) Deixar a criança fazer porque gosta, quando não desenvolveu ainda nenhum controle, é distorcer a ideia da liberdade.
O resultado que se obtém são crianças desordenadas, porque a ordem que lhes foi imposta estava acima do que poderiam cumprir; preguiçosas, pois foram forçadas a um trabalho para o qual não estavam prontas; e desobedientes, porque sua obediência tinha sido imposta e não construída
.

Na minha prática pedagógica, comprovo que as crianças necessitam de uma educação com limites, mas com regras claras e coerentes. As regras são fundamentais para a construção do caráter, dando segurança à ação da criança.

Então, se a criança fizer uma birra sem motivo aparente e estiver em segurança, “ignore-a”. Mas nesse caso ignorar não significa abandonar, ou não ligar para sua manifestação: significa que o adulto vai ficar perto da criança e sinalizar que só poderão conversar quando ela se acalmar. E o adulto, pacientemente, deve esperar.

Se a birra ocorrer em local público, não ceda à vergonha. Mais importante “do que os outros vão achar” está a formação da educação do seu filho.

Explique claramente o motivo do “não” de forma assertiva, para que a criança compreenda as circunstâncias da negação. Mantenha um tom de voz baixo e tranquilo. Não supervalorize a birra, nem se mostre exaltado. Quando a criança perceber que fazer birras não é a melhor estratégia para conseguir o que quer, vai desistir e deixar de manifestar sua contrariedade pelo choro.

Se a criança tiver um padrão de birras sempre que contrariada, mantenha-se firme. Mais cedo ou mais tarde o comportamento vai se alterar e a paciência compensará.

Para uma boa educação montessoriana, tente também compreender os sentimentos que motivam a birra; ouça, converse e conforte a criança caso se sinta ansiosa ou com vontade de se expressar. Ajude-a a identificar seus sentimentos pessoais e a lidar com as novas emoções.

Importante: não vacile em usar o “não” sempre que a criança tiver um comportamento que possa colocar em risco sua segurança ou a de outros, como o de arremessar objetos ao chão, por exemplo.

Trabalhar regras com as crianças é um exercício demorado, que demanda constância e tenacidade. Muitas vezes teremos de voltar para as mesmas conversas com nossos filhos, assim como acontece quando ensinamos para eles os hábitos de higiene ou as boas práticas na alimentação. Esse é um aprendizado que deve ser construído no dia a dia nas relações familiares e que depois vai se estender nas relações sociais e escolares. É por meio desse exercício que a criança entenderá que a regra serve para estabelecer os direitos e os deveres de cada um, não se reduzindo, apenas, em mera proibição.

Amar os filhos é desejar que se formem como adultos em equilíbrio. Amar os filhos requer dos pais equilíbrio em suas próprias ações.

Por Márcia Righetti, educadora, fundadora e diretora pedagógica da Aldeia Montessori.

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vivência montessoriana

Ambiente que ensina: saiba mais sobre a vivência montessoriana

A vivencia montessoriana é aprendida desde o inicio da vida escolar dos nossos alunos. 

Já faz tempo, um dia veio escrito, numa caderneta, um relato de um menininho de uma de nossas classes. Era o relato da conversa que tivera com a mãe ao chegar em casa. Esta, interessada com o que fazia o filho no ambiente escolar, queria sempre saber o que ele havia aprendido…

– Filho, diz a mãe, o que foi que a sua professora ensinou hoje na escola?

E ele, muito seguro e feliz responde:

– Ô, mãe! Você ainda não sabe que na minha escola não é a professora que ensina, é a “sala”!

Aquele menininho havia captado a essência de um ambiente que ensina, da vivência montessoriana, onde a figura do professor é aquela do que “faz o meio de campo”, mostrando como se usa um ou outro material apontando novos caminhos; mas ele teve consciência que era com  cada material que  fazia descobertas e aprendia, e como eram tantos resumiu-os numa palavra: a sala.
Nunca esqueci esta fala, vinda da natureza espontânea da criança, para tornar claro para a mãe uma coisa que ele sentia e vivia sem dúvidas.

Para pais, que sem a vivência montessoriana formam padrões escolares a partir de suas próprias experiências nas escolas ortodoxas; a simplicidade da descoberta do menininho é uma conquista que custa a chegar, na maioria das vezes.

Como entender e acreditar neste trabalho maravilhoso que a criança desenvolve com os materiais montessorianos, se ele não segue nos parâmetros conhecidos? Escola é lugar de escrever, de registrar no papel… Será isto verdade absoluta?

Eu acredito que escola é lugar de construir na mente possibilidades para resolver questões, que nem sempre estão nos papéis. Ou melhor, na maioria das vezes estão nas situações que vivemos, com coisas que fazemos, na vida.

Escola deve ser o lugar em que exercitamos melhores condições para viver a vida!

O material criado por Montessori tem papel significativo em sua proposta pedagógica, pois pressupõem a descoberta e assimilação de conceitos através da manipulação de objetos especialmente preparados para esta finalidade.

Eles estão em cada ambiente,  dispostos numa ordem que serve de guia natural para a criança. Não são um caminho definido, mas uma estrada que permite muitas derivações…

A criança usa o material individualmente ou em grupo, à medida de suas necessidades e possibilidades. Os professores são auxiliares de aprendizagem. Eles mostram à criança onde encontram o material, como podem começar a utilizá-lo e como guardá-lo após o uso.

É no trabalho com cada material que escolhe que reside um dos segredos do sucesso. Quando a criança escolhe o que tem vontade de conhecer, sua curiosidade natural é aguçada e nutrida. São inicialmente estes aspectos que evocam a concentração; que vai se instalando, para que gradativamente possa realizar trabalhos maiores e maiores e maiores…

A livre escolha das atividades pela criança é um aspecto fundamental para que exista a concentração e para que a atividade seja formadora e criativa, na vivência montessoriana.

A manipulação dos materiais vai de encontro a necessidade natural de movimento que têm as crianças.

Materiais de desenvolvimento são tão especiais que permitem que as crianças o utilizem por vários anos e continuem a fazer descobertas.

Todos certamente conhecem ou já ouviram falar da Torre Rosa e ela será o nosso ponto de partida para o caminho que queremos percorrer.

A Torre Rosa é um material de desenvolvimento que serve a educação dos sentidos; mais especificamente à educação do sentido visual quanto às dimensões.

Sua primeira apresentação ocorre geralmente, por volta de 2 anos, 2 anos e meio, depois de se exercitar com um material anterior na habilidade de empilhar cubos. A apresentação à criança pode ocorrer pela professora ou por um amiguinho mais velho.

Então a criança pequena vai aprendendo a empilhar os cubos numa ordem de tamanho, percebendo diferenças e semelhanças no próprio material. Quando não o faz corretamente, isto é o controle do erro, ninguém precisa falar nada. O material fala! E se a criança não percebe o erro, é ainda não está suficientemente madura para percebê-lo.

Assim, ela vai perceber que os cubos podem ser empilhados, postos lado a lado, usa a gradação de tamanhos  do maior para o menor, do menor para o menor, compara o cubo maior com o menor, aprende a nomenclatura grande e pequeno, maior que, menor que… Descobre que os cubos variam entre si na mesma medida. Que passa o cubinho do um na lateral de cada outro, quando feita a torre pela aresta… E experimenta possibilidades geométricas e matemáticas que sua mente absorvente vai  registrando até formar conceitos… A mente é absorvente até por volta dos 6 anos.

É assim que acontece com cada material, cada um dele “diz” uma coisa, que se junta a de outro… A de outro…  A de outro, até compreender as coisas do mundo.

O papel do professor é dar lições de nomenclatura, pois linguagem é coisa a cultura que passa de uma geração para outra, estar atento par instigar para novos caminhos, estendo a mão e criando pontes…

– Este é o grande! Este é o pequeno!

– Aqui temos o um, este outro é o mil!

– Isto é a aresta!

– Isto é o vértice!

E por aí vai….

E depois?

Quando o menininho cresce, crescem suas possibilidades de escolher e fazer seu trabalho com os materiais de desenvolvimento na classe Montessori, pois ele já desenvolveu uma série de habilidades que facilitam sua autonomia na escola e sua vivência no ambiente montessori. Mas se chega novo numa escola Montessori, aos  pouco também se adapta, se respeitarmos seu tempo e permitirmos suas descobertas.

Nesse sentido, é preciso que nos lembremos que a habilidade que desenvolveu foi a de seguir o mestre e agora vai ter a oportunidade de descobrir que tem um mestre interior, aos poucos vai desabrochar e é interessante observar seu percurso: primeiro atua observando o movimento da classe; depois como uma abelha a procura do néctar, vai de um material para outro sem manter a concentração – são tantas as possibilidades… E vai, gradativamente aprendendo a transitar pela livre escolha.

Do mesmo modo geralmente mostra-se maravilhado com as descobertas que pode fazer e se respeitamos seu tempo, segue em frente na construção de saberes e habilidades que o deixam cada vez mais feliz.

Numa classe de Ensino Fundamental a livre escolha tem outro desafio, todos precisam formar valores novos: há coisas que podemos escolher e há coisas que precisamos escolher, então é preciso estar atento para transitar por todas as áreas e mais uma vez emerge a atuação precisa da professora, provocando a reflexão sobre a vontade e a responsabilidade: nem sempre podemos fazer tudo o que temos vontade, mas sempre precisamos ter compromisso para levar a termo nossas responsabilidades.

E na sala, lá estão eles: os materiais de desenvolvimento, que levam pela mão cada criança para novas descobertas…

– Onde está a Torre Rosa? Ela bem que poderia estar aqui…

– Mas ela bem que está, sim! Olha o cubinho do um e o cubo do mil no Material Dourado.

– Ah! Mas eles já estavam na minha outra classe. Isto eu não fazia quando era da classe dos pequenos, agora sei dividir!

– Vamos brincar de Banco!

– Olha aqui o tabuleiro da centena!

– Nesta sala ela se chama Crivo, ele ensina os números primos e os números múltiplos, quer aprender?

– Pra que servem tantos cartõezinhos coloridos?

– Pra você aprender a escrever muito direitinho, você pode escolher uma cestinha com cartõezinhos azuis e juntar as palavras com as figuras, depois você pode copiar as palavras.

– No outro dia, pode formar frases com as palavras.

– No outro dia, pode separar as sílabas.

Nos outros dias, pode dar o plural, separar os substantivos femininos dos masculinos, colocar os artigos definidos ou indefinidos que combinem, atribuir adjetivos, classificar quanto ao número… e assim, a criança se desenvolve.

Material montessoriano de desenvolvimento (vivência montessoriana) é um “brinquedo” muito sério – é o instrumento de trabalho da criança na classe e é através dele que a criança aprende. Assim, um jogo, no qual as regras precisam ser bem estruturadas por professores capacitados capazes de fazer intervenções; leva a criança a usar cada vez mais o seu potencial.

Esse é o segredo: é a sala que ensina!

Desse modo, a sala tem tudo na medida para cada criança aprender o que quiser e o que precisa!

Por Marcia Righetti, diretora do projeto pedagógico da Aldeia Montessori e do Centro de Estudos Montessori do Rio de Janeiro, estuda sobre o Sistema Montessori desde 1978, especializou-se no Curso Internacional OMB- Seton Montessori Insitute, integra a comissão científica da Organização Montessori do Brasil, da qual  a Aldeia Montessori é uma das Sócias Fundadoras. Aprendente a cada dia...