O que está por trás de um ambiente Montessori?

Por Márcia Righetti –

Há mais de cem anos, Dra. Maria Montessori percebeu que a curiosidade natural das crianças poderia ser o centro de uma educação que efetivamente desenvolveria suas capacidades verdadeiras.

Suas primeiras experiências envolviam crianças de zonas de risco, com necessidades especiais; porém, mesmo assim, os resultados surpreenderam todos naquele tempo.

Seus conhecimentos além da Pedagogia, como sua experiência na Psiquiatria, deram a Montessori uma visão da educação que apenas depois do surgimento da Neurociência foi ratificada.

Ela sabia que era preciso educar o cérebro!

E foi a partir desse diferencial de conhecimento e de seu propósito de favorecer meios para “educar o potencial humano” que desenvolveu estratégias, utilizadas ainda hoje por cerca de vinte mil escolas espalhadas pelo mundo.

A ação da criança, movida por sua curiosidade natural, em um ambiente preparado para que os estímulos sejam apropriados ao seu desenvolvimento (seja no aspecto cognitivo, psicomotor ou socioafetivo), é fator preponderante nesse processo, que conta ainda com professores treinados, observadores e prontos para apoiar cada indivíduo.

Para o olhar leigo, um ambiente Montessori é apenas encantador, com tantos “apelos” nas estantes para agradar as crianças.

Numa segunda análise, ele é visto como uma possibilidade de aprender brincando, escolher o que se prefere e um lugar de muita liberdade.

Mas quando o adulto observa o burburinho de uma classe Montessori, logo questiona: Cada um faz o que quer? Como a professora “controla” a turma? Às vezes parece uma “confusão” de crianças andando pra lá e pra cá… Como a criança aprende trabalhando sozinha?

Um ambiente Montessori precisa ser observado criteriosamente, a fim de entendermos tudo o que sua criadora analisou e concebeu para oferecer às crianças as melhores condições ao desenvolvimento de seus potenciais.

Dra. Maria Montessori, antes mesmo da Neurociência, que surgiu por volta de 1969, foi capaz de propor um ambiente facilitador para o desenvolvimento das funções executivas, as quais são habilidades que favorecem todos os outros processos de aprendizagem dos seres humanos. Entre elas podemos destacar: a memória de trabalho que, com as informações registradas na mente, aplica-as em situações posteriores; a flexibilidade cognitiva; e a capacidade de pensar criativamente, ajustando-se às novas situações.

São essas habilidades que fazem as crianças se tornarem adultos capazes de manifestar o autocontrole, a tolerância, a resiliência e a perseverança.

E afinal, o que torna uma classe Montessori diferente?

É que, nesse cenário preparado com cuidado científico, se desenvolvem naturalmente as funções executivas. Ele é estruturado para o desenvolvimento harmonioso da criança em etapas, às quais Dra. Maria Montessori chamou de “períodos sensíveis”, oferecendo-lhes possibilidades de movimento, curiosidade, escolhas e descobertas, nas quais o uso dos sentidos (tato, olfato, visão e gustação) também é fundamental.

A professora demonstra o uso do material, mas é o material que “ensina” a criança…

Por exemplo: quando usa a Torre Rosa, a criança assimila o conceito de grandeza nas dimensões, entendendo o que é grande e o que é pequeno. Quando organiza o sistema solar com miniaturas representativas, entende como os planetas orbitam o Sol; ou ainda usando o jogo da “Longa Divisão”, percebe o processo de dividir grandes números em vez de decorar.

As crianças que construíram boas funções executivas têm um nível mais elevado de habilidades emocionais e sociais, tendendo a ser mais saudáveis* ao longo da vida.

Esse é um processo de construção que exige percorrer um longo caminho, claramente favorecido pelos aspectos do desenvolvimento natural nos anos pré-escolares (entre os 4 e 5 anos) e no início da adolescência – sem dúvida, com resultados comprovados!

*Neste caso, a palavra “saudável” se aplica ao conjunto cognitivo-emocional, não à condição médica.


Márcia Righetti
é educadora, fundadora e diretora pedagógica da Aldeia Montessori.