O Processo de Alfabetização – O caminho da criança do real ao ortográfico.

Por Márcia Righetti –

O processo de alfabetização é por vezes uma grande preocupação dos pais; assim como é o vestibular, a busca pelo primeiro emprego ou foi o aprender a andar, a falar, ou seja, cada acontecimento que marca uma nova etapa a ser vencida no desenvolvimento natural dos filhos.

Na metodologia Montessori, ele se inicia no Berçário (Nido 1) e segue por todas as classes da Educação Infantil, até concretizar-se no 1º ano e aperfeiçoar-se no 3º ano do Ensino Fundamental, quando a criança completa sua fase de letramento.
Todo este processo é muitas vezes despercebido pelos pais, que enfatizam a etapa da explosão da escrita e da leitura, geralmente por volta dos 5 ou 6 anos.

Entretanto, cada etapa desse percurso tem grande importância para as crianças. Elas correspondem, como costumo dizer, à bagagem com que cada criança enche seu “baú de conhecimentos”, o qual, na época da formalização do processo de alfabetização, ela arruma, dando significado a tudo que colocou lá dentro.

Maria Montessori percebeu características especiais nos seres humanos, as quais tornam a criança capaz de determinadas aprendizagens em períodos específicos da sua vida; refere-se a essas capacidades temporárias como “períodos sensíveis para o aprendizado”. Aos poucos a criança decodifica o mundo, descobre a realidade à sua volta, nomeia objetos, atribui qualidades, conta, enumera, aprimora e amplia seu vocabulário.

É dessa forma que Montessori considera o processo de alfabetização: o caminho das representações do mundo que a criança faz, do real ao ortográfico. Um caminho que tem como “estrada“ o desenvolvimento natural da criança.

Pela metodologia Montessori, a criança constrói seu processo descobrindo que tudo o que vê ou sente pode ser representado; então, desenha e posteriormente escreve, aprendendo a usar a ferramenta da escrita: as letras.

As primeiras escritas são como desenho, palavras desenhadas, mas têm significado! Representam a leitura do mundo e permitem a comunicação. A escrita reflete o resultado de um processo de análise que a criança desenvolve para perceber como a sociedade usa “sinaizinhos”, as letras, para registrar mensagens. Depois, mais uma conquista: a leitura, que implica novamente decodificar os tais “sinaizinhos”.

Escrita e leitura são momentos diferentes de um processo que, na natureza humana, podem acontecer em ordem direta ou inversa, e cada criança tem seu tempo próprio para percorrer esse caminho.

Numa sala Montessori, os materiais de desenvolvimento apoiam esse processo natural. Lá, a criança manuseia as caixas de reconhecimento, as letras de lixa, os alfabetários, os cartões classificados de nomenclaturas, as caixas de leitura e realiza atividades que estruturam suas descobertas.

E quando a criança “explode” na escrita, muitas vezes esse processo não é compreendido pelos pais, pois o produto que apresenta não é comparável ao dos outros métodos. Nestes, as crianças podem estar formando palavras com sequência de letras determinadas pelos adultos, que limitam o vocabulário e as possibilidades da escrita, mas que, de qualquer forma, estão todas “escritas” numa folha ou caderno, visíveis aos olhos dos pais.

Com o ambiente preparado de uma escola Montessori, muitas crianças, por volta dos 5 anos, já são capazes de escrever e ler – e isso foi resultado de atividades espontâneas e prazerosas!

Cada criança tem seu próprio ritmo de desenvolvimento, cada uma é um ser único. Muitas falaram mais tarde, outras andaram mais cedo, mas todas “devem” aprender a ler e escrever obedecendo a uma cronologia rígida…

Quando uma criança anda mais tarde, incentivamos, afirmando: “está quase andando”. Se fala mais tarde, também estimulamos, provocando a fala. Mas quando a criança não escreve nem lê como outras da mesma idade, cobramos e muitas vezes nos esquecemos de estimular, de incentivar e de compartilhar oportunidades de construção que certamente poderão gerar o apoio do qual precisa para vencer aquela etapa natural em seu processo de desenvolvimento.

Para uma criança, ser cobrada daquilo para o qual ainda não está pronta pode ocasionar resultados contrários ao que espera a família, gerando insegurança. É preciso um olhar cuidadoso no processo de desenvolvimento da criança: é ele que assegura o produto.

Uma criança que atravessa a Educação Infantil demonstrando comportamentos adequados diante das relações que estabelece, da construção do conhecimento, do desenvolvimento psicomotor e da construção de valores certamente não terá dificuldade em apresentar um produto adequado ao final desse processo. Por volta dos 5 ou 6 anos estará usando a linguagem escrita como forma de comunicação, nível que Montessori aponta como conclusivo dessa etapa do processo.

Ajudar a criança a construir-se é o papel dos adultos, de todos os adultos com quem convive, seja na escola ou em casa. Formar hábitos; nutrir a curiosidade da criança; construir vínculos com o descobrir e o aprender; desenvolver habilidades; ampliar a compreensão do mundo, atribuindo significado a tudo que a cerca e construir o conhecimento são caminhos que a criança necessita percorrer plenamente.

Cada etapa precisa ser acompanhada de forma cuidadosa durante a Educação Infantil. É claro que as crianças são ainda pequenas, mas precisam ter asseguradas as oportunidades necessárias, com intervenções que cabem aos adultos: zelar para que construam valores socialmente apropriados e que possam desenvolver a autoestima, a segurança, a iniciativa e efetivar vínculos prazerosos com a construção de saberes.

Acreditamos que, assim, poderão levar a termo, de forma natural e plena, todas as suas possibilidades de aprendizagem e efetivar a conquista da leitura e da escrita, assim como andaram e falaram.

Márcia Righetti é educadora, fundadora e diretora pedagógica da Aldeia Montessori.