Sobre birras, liberdade e limites

Por Márcia Righetti -

Certamente todos nós já presenciamos (ou protagonizamos) a cena de estarmos em algum local público com uma criança que se esgoela, chora, bate pé e se debate diante de alguma negação ou frustração.

A birra é um comportamento muito comum apresentado por crianças, mas nem sempre compreendido em sua essência pelos pais, os quais, em muitas situações, ao se verem constrangidos, cedem ou apelam para a punição física.

Para educar é preciso paciência e perseverança. Duas atitudes trabalhosas, principalmente nos dias atuais, em que o tempo parece ser um líquido escorregando entre nossos dedos.

Desde muito cedo as crianças procuram testar os limites daqueles que as rodeiam.
Elas identificam facilmente os adultos que cedem as suas birras e os que não cedem, construindo estratégias diferentes para lidar com cada pessoa em cada ocasião.
É assim que vão estabelecendo suas relações com o mundo.

Se a criança compreender que determinado comportamento a leva a conseguir o que deseja, é natural que volte a repeti-lo.

Se os pais têm dificuldade em adotar uma postura firme, confundindo autoridade com autoritarismo, observa-se como consequência o comportamento inadequado dos filhos, manifestando desrespeito com outras crianças e com os adultos com quem lida. Umas, quando não têm seus desejos satisfeitos, além da birra e do choro, batem e chutam; já outras, em manifestação extrema, cospem no alvo que dificulta conseguir aquilo que querem.

É preciso ensinar as crianças a lidar com o “não”, com a frustração. Na vida, nem sempre nossas vontades podem ser satisfeitas.

Nas palavras de Maria Montessori, em seu livro Mente Absorvente: “(…) Deixar a criança fazer porque gosta, quando não desenvolveu ainda nenhum controle, é distorcer a ideia da liberdade.
O resultado que se obtém são crianças desordenadas, porque a ordem que lhes foi imposta estava acima do que poderiam cumprir; preguiçosas, pois foram forçadas a um trabalho para o qual não estavam prontas; e desobedientes, porque sua obediência tinha sido imposta e não construída
.

Na minha prática pedagógica, comprovo que as crianças necessitam de limites, mas com regras claras e coerentes. As regras são fundamentais para a construção do caráter, dando segurança à ação da criança.

Então, se a criança fizer uma birra sem motivo aparente e estiver em segurança, “ignore-a”. Mas nesse caso ignorar não significa abandonar, ou não ligar para sua manifestação: significa que o adulto vai ficar perto da criança e sinalizar que só poderão conversar quando ela se acalmar. E o adulto, pacientemente, deve esperar.

Se a birra ocorrer em local público, não ceda à vergonha. Mais importante “do que os outros vão achar” está a formação da educação do seu filho.

Explique claramente o motivo do “não” de forma assertiva, para que a criança compreenda as circunstâncias da negação. Mantenha um tom de voz baixo e tranquilo. Não supervalorize a birra, nem se mostre exaltado. Quando a criança perceber que fazer birras não é a melhor estratégia para conseguir o que quer, vai desistir e deixar de manifestar sua contrariedade pelo choro.

Se a criança tiver um padrão de birras sempre que contrariada, mantenha-se firme. Mais cedo ou mais tarde o comportamento vai se alterar e a paciência compensará.

Tente compreender os sentimentos que motivam a birra; ouça, converse e conforte a criança caso se sinta ansiosa ou com vontade de se expressar. Ajude-a a identificar seus sentimentos pessoais e a lidar com as novas emoções.

Importante: não vacile em usar o “não” sempre que a criança tiver um comportamento que possa colocar em risco sua segurança ou a de outros, como o de arremessar objetos ao chão, por exemplo.

Trabalhar regras com as crianças é um exercício demorado, que demanda constância e tenacidade. Muitas vezes teremos de voltar para as mesmas conversas com nossos filhos, assim como acontece quando ensinamos para eles os hábitos de higiene ou as boas práticas na alimentação. Esse é um aprendizado que deve ser construído no dia a dia nas relações familiares e que depois vai se estender nas relações sociais e escolares. É por meio desse exercício que a criança entenderá que a regra serve para estabelecer os direitos e os deveres de cada um, não se reduzindo, apenas, em mera proibição.

Amar os filhos é desejar que se formem como adultos em equilíbrio. Amar os filhos requer dos pais equilíbrio em suas próprias ações.

Márcia Righetti é educadora, fundadora e diretora pedagógica da Aldeia Montessori.