Conhecer as crianças para poder ajudá-las: um desafio para quem educa!

Muitas vezes nos pegamos julgando crianças pequenas como agressivas, mas o que assim denominamos pode ser apenas uma forma de relacionamento que ainda não encontrou o equilíbrio, um comportamento reativo que se expressa. Este é um assunto bastante amplo e podemos notar suas raízes desde o início das relações das crianças ainda na Educação Infantil.

Muitos adultos, por desconhecerem as características do desenvolvimento infantil, atribuem o peso das ações deles às relações entre as crianças, e elas são muito diferentes…

Como adultos, para cuidar e educar nossas crianças, precisamos saber o que diz respeito a uma determinada faixa etária e o que está fora dos padrões esperados; por isso, é tão importante conhecer sobre o desenvolvimento infantil, buscar leituras que possam ajudar a entender as crianças e os comportamentos que elas apresentam.

Jean Piaget, psicólogo respeitado por sua teoria de desenvolvimento do pensamento, contemporâneo e parceiro de Maria Montessori, pois foi presidente da Associação Montessori Suíça, é sempre uma boa referência, indicando como as crianças entendem o mundo.

Do nascimento aos dois anos de idade, a criança se apresenta na fase sensório-motora, explorando e se relacionando com o mundo através dos movimentos e dos sentidos. Impulsos reflexos fazem com que leve tudo à boca, e aí podem surgir as mordidas… Sem intenção de agressividade, apenas fruto de um impulso reflexo em busca da exploração, que vai sendo cuidado com novos estímulos e a “fase passa”. Uma criança, com até dois anos de idade, que morde as outras não pode ser rotulada como agressiva. Ela ainda não sabe usar a linguagem verbal, e a linguagem corporal acaba sendo mais eficiente.

Nessa fase, a criança é egocêntrica e entende que é o centro do mundo, que todas as suas vontades podem prevalecer, que o mundo funciona em função dela. Ela ainda não tem a capacidade de compreender que outras pessoas podem ter pontos de vista e sentimentos diferentes do seu. A disputa por objetos ou pela atenção das pessoas queridas é uma das formas de relacionamento. Na intenção de obter um objeto de desejo o mais rápido possível, já que não consegue verbalizar com fluência, os pequenos podem morder e empurrar, sem a intenção de atingir o outro, mas tão somente com o intuito de satisfazer sua vontade.

Essa fase de disputa é natural no desenvolvimento humano e, com quanto menos ansiedade for tratada, mais rápida e tranquilamente será transposta. Os cuidados dizem respeito à forma como se conduzem as orientações à criança e às estratégias utilizadas de forma construtiva.

Muitas vezes, o que é normal no desenvolvimento humano pode se desvirtuar em rótulos e punições, por isso é tão importante CONSTRUIR os limites no comportamento e no relacionamento social com as crianças. Entendemos que é construindo valores que os resultados são mais bem atingidos: qual é meu espaço e qual é o espaço do outro, o que dói no outro, o que desrespeita o outro, o que agride o outro.

Aos adultos cabem intervenções, quando necessárias forem, evitando que se machuquem, e explicando que a atitude não é correta, não permitindo que se repitam, construindo limites de forma positiva, sem punições ou premiações. As crianças ficam felizes quando se sentem capazes de vencer desafios e são reconhecidas no seu esforço — este é seu maior “prêmio”. Cuidamos para saberem como nos importamos com o que fazem, que cada uma é importante para nós e caminhamos lado a lado, a fim de que vençam cada etapa e seus desafios naturais.

Um comportamento reativo pode aparecer ainda em relação a uma frustração, às mudanças ocorridas, e manifesta-se com birras, gritarias e chutes. Impulsos ainda não controlados, mas que precisam ser educados. Os pais não podem permitir que seus filhos batam neles ou gritem com eles, pois certamente experimentarão os mesmos comportamentos com outras pessoas, crianças ou adultos. Para educar é preciso firmeza, persistência, paciência e amorosidade. Graça e cortesia são lições que precisam ser dadas pelos adultos.

Por volta dos três anos, as crianças já acrescentaram milhares de palavras ao seu vocabulário e começam a descobrir o prazer em brincar com o outro e se comunicar. Até os sete anos, já devem ter deixado para trás o egocentrismo ampliado a sua socialização. Dos dois aos sete anos, devem ser estimuladas a expressar oralmente suas vontades, opiniões e sentimentos e a buscarem a solução dos pequenos conflitos do cotidiano através do diálogo. O melhor caminho para conseguir isso é que os adultos tenham essa mesma conduta no trato com as crianças, intervindo amorosa e firmemente quando usam a força física para conseguir o que desejam. Tratando as crianças de forma gentil, sem gritos ou ameaças. Elas aprenderão com os adultos a serem gentis!

Alguns comportamentos do mundo adulto podem aparecer nessa época como discriminação, preconceito e apelidos. Aos pais e educadores cabe pontuar a não aceitação deles e cuidar para que eles próprios não sejam o modelo para a criança, criticando o outro que é gordo, que é mais lento, que é mais tímido. Quantos já ouviram que “perderam a língua” e isso não foi nada agradável… E ouviram de adultos… E as crianças repetiram…

Hoje, pelas novas descobertas científicas, sabemos que em nosso cérebro os neurônios espelhos são ativados quando uma ação é realizada ou quando simplesmente observamos outra pessoa realizando essas mesmas ações. Essa reação explica o que Maria Montessori denominou como “mente absorvente”, referindo-se à maneira como as crianças aprendem e se adaptam ao mundo, espelhando as ações que vivem em seus ambientes sociais. Assim, as crianças aprendem também a empatia ou a antipatia, vivenciando a ação do outro como se fosse dela própria.

A escola é o primeiro grupo social no qual a criança começa a fazer parte do coletivo. Via de regra, em casa, a criança é sempre querida, amada e compreendida, o que não acontece no convívio social com seus pares e onde precisa conquistar os amigos e inserir-se no grupo. É nesse espaço que se depara com situações de esperar ou ceder a vez, respeitar a vontade do outro, respeitar o espaço do outro, compartilhar, ajudar… Nem sempre é coisa fácil se sempre foi o “reizinho da casa”, como o título do livro do Dr. Gustavo Teixeira que os adultos devem ler. Nesses casos, as ações reativas podem se transformar em agressividade.

A personalidade da criança se forma até os seis anos de idade e, por isso, toda experiência e a qualidade com que foi vivida nessa fase é de fundamental importância. Estímulos adequados, reconhecimento, afeto, compreensão têm resultados muito mais rápidos e menos estressantes do que “bronca, castigo, sofrimento e indiferença”. Cuidar de cada etapa com tudo o que elas exigem.

É muito importante que os adultos observem as crianças sem julgamento, ajudem-nas a encontrar o equilíbrio e a harmonia nas suas ações, construam com elas limites firmes e de maneira amorosa e, principalmente, lembrem-se de que “para educar, é preciso educar-se” — e esse é o papel do adulto.

 

Leitura indicada:

Daniel Goleman — Inteligência emocional e a arte de educar nossos filhos.
D. W. Winnicott — A criança e o seu mundo.
Gustavo Teixeira — O reizinho da casa.
Maria Montessori — Pedagogia Científica.
Tania Zagury — Limites sem trauma.
T. Berry Brazelton e Joshua D. Sparrow — A criança dos 3 aos 6 anos.

 

Por Márcia Righetti – Diretora Pedagógica da Aldeia Montessori